O que é um milagrário
pessoal? Bem, isso o leitor do belíssimo livro de José Eduardo Agualusa só vai
descobrir ao ler a obra publicada no Brasil pela editora língua geral em 2010.
Mas posso adiantar alguns elementos que julgo importantes e que merecem
destaque. Mas antes quem é o autor?
José Eduardo Agualusa é um
escritor Angolano, que se destaca no cenário literário dos países de língua
portuguesa, com obras como As mulheres de
meu pai, O vendedor de passados, Estação das chuvas, Barroco tropical e muitos outros títulos.
Em milagrário pessoal o autor retoma seu estilo de escrita fantástica,
misturando elementos do maravilhoso, o que faz o leitor viajar por eventos
misteriosos que nem sempre são possíveis de desvendar. Como destaco no trecho
inicial da obra, na qual já fica claro esse brincar e lutar constantes com as
palavras,
“As palavras, como os seres vivos, nascem
de vocábulos anteriores, desenvolvem-se e fatalmente morrem. As mais
afortunadas reproduzem-se. Há as de índole agreste, cuja simples presença fere
e degrada, e outras que de tão amoráveis tudo a sua volta suavizam. Estas
iluminam, aquelas confundem. Umas são selvagens, irascíveis, cheiram mal dos
pés, fungam e cospem no chão. Outras, logo ao lado, parecem altivas e delicadas
orquídeas.” (Agualusa, 2010, p. 15)
A obra conta a história de um
renomado professor de filologia em fim de carreira e uma aluna de doutorado em
linguística que estuda o surgimento diário de novos neologismos em jornais,
blogs e outros veículos de comunicação, a partir de um programa de computador.
Até aí nenhuma novidade, mas
a trama ganha força quando o professor se apaixona por Iara, a aluna de
doutorado, que tem esse nome sugestivo por sua capacidade de despertar nos homens
o desejo, pois é detentora não só de grande inteligência, mas de delicada
beleza.
No momento em que Iara, em
suas pesquisas sobro os neologismos, se depara com um conjunto de palavras
misteriosas as quais ela não consegue desvendar suas origens, começa a busca
por dar sentido a esse conjunto de palavras, o que termina por levar Iara e o
seu professor por cidades em Portugal como Lisboa, depois para o Brasil e
Angola, unido a essa busca apresenta-se também as ricas memórias do professor
que antes de ser professor, viveu experiências que interligam seu passado a
esses três espaços: Brasil, Portugal e Angola.
Em meio a essa busca por
respostas, mais dúvidas surgem e uma língua misteriosa parece ser a origem das
palavras encontradas por Iara, a Língua dos Pássaros, uma língua que teria
existido em Angola, e veio para o Brasil nas caravelas dos colonizadores
portugueses, ou seria apenas fruto dos sonhos do veterano professor apaixonado
por Iara?
Milagrário
pessoal é uma dessas
obras que lembram clássicos como Dom Casmurro, de Machado de Assis, e as
perguntas que não tem resposta, e mesmo aquelas que tem resposta, deixo aos
leitores apenas a certeza que não se arrependerão de dar uma vista de olhos
nesse Milagrário Pessoal.


